terça-feira, 30 de junho de 2015

Sem or gezuis, mim ajuda a entender

Estou ficando muito confusa linguisticamente.

De um lado está todo mundo (os nazi grammar) criticando erros alheios nas redes sociais: uma vírgula que falta, o uso do z ao invés do s, concordância, acento, e a lista é grande. Celebridades devem ter contratados professores de português só para postagens em redes sociais, para não virarem manchete na página inicial do Yahoo e serem tachados de analfabetos publicamente e muitas vezes comentários interessantes tornam-se inválidos diante de um erro (ou inadequação gramatical, como alguns linguistas mais 'prafrentex' diriam).

Por outro lado, está todo mundo escrevendo propositadamente 'errado': toco fomi, cabô, cheganu, as mina, é nóis, pópará, cazamiga, gezuis, sem or, e a lista é maior ainda...

Às vezes acho divertido ver esses desdobramentos tão, sei lá... inesperados (seria essa a palavra?) da nossa língua escrita - língua escrita uma vírgula porque, nas redes sociais, o que se vê é o nosso coloquialismo, as marcas da oralidade, só que escrita. Outras vezes penso: gente, que loucura! Se você é uma pessoa estudada e tem a intenção de escrever 'errado', aí está ok, legal, bacana, você é cool! Se você não tem essa intenção explícita de ser engraçado e/ou irônico no momento de escrever 'errado', meu amigo, prepare-se para a quantidade de professores de gramática surgindo em seu mundo virtual!

O coloquialismo, enfim, está ganhando um espaço privilegiado nessa hierarquia de poderes linguísticos?  Hmmm... I don´t think so! Nunca! Está claro que ainda continua muito bem definido como se fala quando se quer fazer escárnio, e como se fala quando se quer ser levado a sério: o certo e o errado. a língua culta e a oral, em seus lugares secularmente posicionados. Escrever errado é para quem pode, meu bem.







segunda-feira, 22 de junho de 2015

Dica de música: Chet Faker

Tenho ouvido quase que diariamente esse cara aqui: Chet Faker! Não, não escrevi errado 'Baker'. É Faker mesmo. É tão bom quanto Chet Baker, só que diferente, entende? O cara é muito bom… e tem barba (risos!) Sem resenha, apenas escute com ouvidos de ouvir! Beijos!


Olha ele aí:


terça-feira, 16 de junho de 2015

Da bitch do Central Park aos beats da cidade

A crônica abaixo, escrita no início de 2014, não foi publicada. É uma continuação do texto anterior. Ela é acompanhada por um vídeo que a complementa, já que falo de uma Nova Iorque sonora. Então, não deixe de assistir a crônica audiovisual, cujo vídeo está lá no final do texto (que é justamente pra você não deixar de ler a crônica antes de ver o vídeo hehehehe).

Se eu contar, ninguém acredita: mais uma do Central Park. Estava naquele processo de exploração do local, andando de bike, parando em determinados locais para bater fotografia, filmando, sentindo a energia... essas coisas de turista. Entrei numa rua mais estreita porque vi um parquinho e queria fotografar. Estacionei a bike e estava mirando a câmera, quando ouvi uma voz de uma mulher extremamente irritada.
- O que você faz aqui? Não viu a placa?

Ela era loira, magra, toda descabelada, olhos arregalados. Aparência de louca...cruzes!
- Desculpe-me, - eu dizia – só queria bater uma foto, não vi a placa.
- Não pode andar aqui! Este não é um local para bicicletas! - Seu tom de voz era agressivo.

Ignorou minhas desculpas e continuava a gritar. Percebi que a moça estava a fim de encrenca. As pessoas passavam pela gente assustadas com a gritaria da mulher. Em português, respondi que era desnecessário esse barulho todo e que já estava de saída – não conseguia mais raciocinar em inglês. Saí empurrando a bicicleta na frente dela. Quando percebi que havia me afastado um pouco subi na bike novamente. Gente, essa mulher deu um “piti” gigantesco! Nunca vou esquecer dela gritando: “Lady, volte aqui”. Nem olhei para trás. Saí pedalando o máximo que podia. Passei por um rapaz, todo engomadinho, com uma maleta nas mãos, também assustado com a cena, e falei pra ele:
- Que gente louca!
Deu um sorriso e respondeu:
- É assim há quase 400 anos!

Sim, nesta Nova York de quase quatro séculos de existência todas as possibilidades de experiências são o mínimo que se pode encontrar. E foi só andar mais um pouco pelo parque que percebi que as próximas aventuras seriam muito melhores do que a anterior. Comecei a ouvir uns batuques ao longe... ufa, com a música, senti-me novamente acolhida pela cidade maluca. Eram três percussionistas animando uma galera que dançava e batia palmas acompanhando o ritmo.

Mais à frente encontrei um senhor chinês, solitário em um banco, tocando o Erhu, um instrumento de duas cordas, que em contato com um arco, como os de violino e viola clássica, emite um som melancólico, porém belo e singelo.

Diante de tanta diversidade, uma coisa me pareceu homogênea e imperiosa: a relação de NY com a música. Nas estações de metrô, nas ruas, nas praças e parques: os artistas estão em todos os lugares. Bandas inteiras posicionadas em uma esquina qualquer com seus instrumentos elétricos, caixas de som, fios para todos os lados, microfones. E os transeuntes, mesmo que acostumados com  a música em todos os lugares, sempre dão uma paradinha, jogam um dólar na caixinha e vão embora satisfeitos. Interessante notar que as caixinhas sempre estavam recheadinhas de dólares.

Novaiorquinos colaboram com os artistas, gostam de música e valorizam-na. E quando o assunto é jazz então, eles são muito sérios. Quando vão a um bar onde se toca esse estilo de música, não pense que vão para paquerar, ficar de conversinha com os amigos e bebendo à toa. Não! Eles vão para apreciar a música. Ficam paradinhos, compenetrados, em silêncio. É lindo de ver... e de ouvir...

Fotografei cada lugarzinho que passei, porém reforcei meus registros gravando os sons das ambulâncias, buzinas, do musiquinha suave do caminhão de sorvete, do trem chegando na estação, de guitarras, baixos, violoncelos, violinos, do erhu no Central Park, do steel drum, do festival de música soul gratuito no Brooklin, do coral gospel no Bryant Park. Foi o mais próximo que encontrei de manter minha memória sensorial viva e de conservar as sensações que a cidade, com todos os seus sons e barulhos, me causavam. Tanto que, depois de alguns meses da minha volta, tive que assistir muitos desses vídeos para reativar minhas impressões e escrever esta crônica.

E, sem pestanejar, digo que uma das experiências mais fantásticas que vivi esteve relacionada com a música. Foi no museu The Cloisters, que expõe a arte e arquitetura da Europa na Idade Média. Havia uma sala com 40 caixas de som, mais ou menos na altura de nossas cabeças, em que cada uma emitia vozes diferentes de um coral. Andava-se pela saleta e era possível ouvir de cada caixinha uma voz, que juntas formavam aquela linda música. Ouvi a música do início ao fim – ela tem 14 minutos – e me emocionei muito. Como nenhuma palavra é capaz de explicar a sensação daquele momento, eu gravei e editei um vídeo com muitos dos sons citados acima, inclusive o da sala no The Cloisters, e algumas imagens que me marcaram. É um registro bastante pessoal, é minha memória, é minha crônica sonora e visual e gostaria de compartilhar com vocês.

Segue o vídeo abaixo:



Coloquei também algumas fotos no flickr. Veja AQUI.




quarta-feira, 10 de junho de 2015

O paladar de quem fala inglês

Bom, esta crônica foi publicada na Revista Afinal, em 2013 depois de eu ter voltado de NY. Acontece que escrevi outra crônica depois dessa e não a publiquei. Então, antes de postar a segunda crônica, posto esta abaixo para ficar uma sequência, certinho?  Na próxima haverá fotos e um vídeo. 

Já tinha percorrido grande parte do Central Park quando, na altura da 100ª rua decidi parar a bicicleta e contemplar mais uma daquelas paisagens surpreendentes que o local reserva. Havia um pequeno lago protegido por árvores com galhos que caíam ao chão, como que em reverência a todo ambiente. Prestava atenção aos sons do cenário natural misturados aos da cidade, quando em um dado momento, avisto um senhor sentado em um banco próximo ao meu, entre umas folhagens. Ele tinha algo em suas mãos e seus movimentos eram todos voltados para esse objeto.

Procurava ser discreta ao observá-lo, pois os novaiorquinos podem ser extremamente temperamentais. Passado algum tempo, ele se levantou e veio lentamente em minha direção. Disfarcei meu desconforto. Então, quando mais próximo de mim, disse:
- Pegue essa caixinha. É sua.

E largou, no banco ao lado do que estava sentada, uma caixinha vermelha. Como estava apreensiva, não consegui respondê-lo. Mas, quem liga? Ele já estava seguindo seu caminho, decidido, e nem olhou para trás. Observei aquele senhor arqueado e de pernas afastadas uma da outra se retirar da cena, indiferente a minha reação e ao fato de deixar um objeto que foi de seu domínio com outra pessoa. Então, voltei-me para a caixinha. Passei os próximos cinco minutos, no mínimo, estudando o objeto daquela distância, que me parecia segura.

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Cheguei em Nova York em 27 de agosto. Meu primeiro diálogo na Big Apple foi com o taxista que me levou do aeroporto até o hostel. Aquele senhor me levava em seu carro, com naturalidade e silêncio. Eu estranhei o fato dele não me perguntar de onde eu vinha, o que fazia ali, como geralmente fazem os taxistas em Porto Alegre. Mas, os papéis se inverteram e eu, que achava um saco ficar respondendo as perguntas deles, agora como turista curiosa, iniciei a conversa. Ele era do Haiti e vivia há cerca de dez anos em NY. Estranhou o fato de eu ser brasileira, porém como que lembrando de algo mais importante, logo emendou, simpático: Brasil, World Cup! Nosso diálogo discorria enquanto olhava com avidez para o mundo que se abria lá fora, ora mirando de um lado da janela, ora do outro.

Ele seria apenas o primeiro a estranhar o fato de eu ser brasileira, a julgar pela minha aparência estereotipada de branca europeia, somado ao fato do Brasil, durante muito tempo, ter vendido a imagem de um povo mestiço, simbolizada pela famosa mulata brasileira. Também seria apenas o primeiro a me falar da Copa do Mundo, a maior referência atual para os estrangeiros. Quando perguntava o que é que eles conheciam do Brasil, a maioria falava do Rio de Janeiro, São Paulo e, poucas vezes, da Bahia. O Rio Grande do Sul é praticamente inexistente para grande parte das pessoas com as quais conversei e eu, para ajudá-los, citava a Argentina e o Uruguai como lugares próximos.

Descobri que Nova Iorque está longe de ser apenas aquela cidade vendida por “Sexy and the City” - que circula apenas por Manhattan - e que os cupcakes do Magnólia Bakery (lugar badalado, que as meninas do seriado adoram ir) nem são tão bons assim, doces demais para o meu paladar. Também descobri que o famoso Pretzel – que está no ranking das comidas que “você não pode deixar de experimentar em Nova Iorque” - é horrível: seco, duro e sem sabor. Por outro lado, descobri sabores incríveis fora do mainstreem da cidade. Como na Little Italy, onde fui diversas vezes, e pude presenciar a Festa de San Genaro (a festa das festas, como eles mesmos denominam). Como toda festa/feira que se preze, a comida é um dos principais atrativos. Lá comi uma bolacha recheada, chamada Oreo (parecida com o Negresco brasileiro) em que é coberta por uma massa e logo após, frita. Calórica, porém muito gostosa. Também havia uma espécie de pastel com uma massa bem grossa, assustadora. Batatas fritas no palito, sorvetes italianos deliciosos, linguiças fritas na hora (também assustadoras), torrones em quilos, limonadas de cores variadas e coquetéis com quase nada de álcool.

Próximo dali, no SoHo, conheci um restaurante mexicano que poderia elegê-lo como meu preferido. Chamado “La Esquina”, é muito pequeno e todo decorado com pequenas lâmpadas coloridas. Tive a oportunidade de ir duas vezes. Em uma delas comi taco com guacamole acompanhado de refrigerante de tamarindo. Sim, os refrigerantes mexicanos foram, para mim, uma atração à parte. Em outra oportunidade tomei Sangria, é como um vinho de uva, sem álcool e com gás – porém existe Sangria com álcool.

Também comi em um restaurante turco, o Ali Baba, onde experimentei uma bebida chamada Ayran, feito de iogurte natural, água e sal. Quanto à comida, encontrei poucas opções vegetarianas nesse local, então acabei comendo só a entrada: pão sírio com variados molhos como o de berinjela, humus, vinagreti. Já, em um restaurante coreano, as opções para vegetarianos estavam marcadas com um 'V' no cardápio. Comi uma sopa com vários legumes. Gostei muito, apesar de ser extremamente apimentado. Aliás, quase toda comida em Nova Iorque vinha acompanhada de uma boa dose de pimenta, independente da origem.

Imagino que seja influência dos Mexicanos, que habitam a cidade com muita propriedade. Porém, esse posto não cabe só a eles, não. Todos sabemos que NY é uma mãezona que abriga gente de todos os lugares deste planeta. São pessoas que carregaram tudo que aprenderam em seus países  e reproduzem de maneira fiel um pouco dessa cultura nas comunidades onde vivem atualmente e em suas lojas e restaurantes. Não se vai para NY conhecer a cultura americana crua e sim para se surpreender no metrô ao ouvir um menino de cinco anos de idade falando duas línguas fluentemente e alternando-as a cada frase. Para andar na rua e se perguntar qual língua que aquelas pessoas atrás de você estão falando. Para ouvir variedades do inglês ininteligíveis aos ouvidos, ou mesmo para ouvir um inglês que dá a certeza de que é oriundo de algum brasileiro. Para sintonizar em alguma rádio local e se surpreender com o espanglês natural e institucionalizado dos radialistas, que muito fez-me lembrar algumas rádios de Porto Mauá, cujo local já tem outra língua convencionada: o portunhol.

Dois pontos me fizeram refletir a respeito daquele mosaico cultural e linguístico: sua língua materna mantém-se latente e eles a utilizam diariamente alternada ao inglês fluente; a cultura é algo inabalável em qualquer povo, parece óbvio, visto o que vivenciamos aqui em nossa região quando vemos as etnias agrupadas e se esforçando em mantê-la viva na comunidade, porém isso me salta aos olhos com uma sensibilidade maior, hoje.

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Pois é, você pode estar se perguntando a respeito daquela caixinha, no início do texto.  Levantei, peguei a bicicleta que estava escorada e saí lentamente, com um certo arrependimento, confesso. Mais distante, olho para trás e vejo um senhor que, curioso, a abriu. Tornou a fechá-la, logo em seguida, com expressão de desinteresse e seguiu seu caminho.

Assim como eu mesma fiz. Preferi criar mil histórias em minha mente, a partir do que poderia ter encontrado, a abri-la e esboçar a mesma reação.



domingo, 31 de maio de 2015

Repoesia I – A gaiola ornamentada


Na rua calma e silenciosa da cidade quente e pequena, sol batendo forte no calçamento de cimento e na rua de pedra. 

Ninguém passando. Silêncio. 

Não muito longe dali, um pássaro azul com penas arrepiadas na cabeça. 
Cantava pausadamente: Um pio, parava. Dois pios, parava. Um pio, parava.

Havia uma gaiola. Também azul. Pequena. Ornamentada. Ela balançava ao movimento da brisa quente. A árvore a emprestar seus galhos para segurá-la. 

O pássaro tinha um preço.

O pássaro. Pio. A brisa quente. Pio pio. A gaiola. Pio. O movimento leve. Pio. A meia sombra. Pio pio. O preço. 



 -- Repoesia -- repórter com olhar de poesia
Ele não finge ser imparcial;
Ele não precisa de fontes, pode até falar em primeira pessoa;
Tudo o que precisa é ver com outros olhos, 
E olhar demoradamente, 
E olhar...  isso muda muito seu modo de ver. 

Texto escrito em 30 de novembro de 2011, com algumas alterações.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Não conte tudo pra sua mãe, Quico!


“Se você tem um problema, conte para sua mãe e terá dois”. Essa expressão já faz alguns anos que ouvi, refleti e internalizei em minha vida. Uma espécie de mantra, que se não fosse por algumas experiências que me levaram a acreditar nele, não faria muito sentido.

Quando morava no Mato Grosso, a cerca de oito anos atrás, qualquer tombo para mim, se tornava um imenso problema. E foi, na verdade. Eu tinha aqueles tanquinhos de lavar roupa e uma certa manhã, antes de ir trabalhar, resolvi lavá-las. Como era período de seca, havia muita, mas muita poeira pela cidade, e meu trabalho – de repórter – me levava a lugares diversos, como em plantações de soja e matagais com focos de incêndio, então lavava umas três vezes por semana. Mas, naquele dia havia derramado um pouco de água no chão, porque o tanquinho ficava embaixo de uma torneira, algo bem improvisado mesmo, e despejava a água direto no chão (ás vezes, usava para limpar a área, outras levava a máquina até o chão de terra para irrigá-la). Com o piso da varanda molhada, acabei resvalando e caí. Lembro que escovava os dentes naquele momento e quando caí, parei uns segundos para sentir a dor e logo voltei ao movimento de escovação. A cena era: eu deitada no chão da varanda escovando os dentes. Demorei um tempinho até ter coragem de me levantar, pois apesar de, naturalmente continuar escovando os dentes, eu estava sentindo muita dor. Caí bem com o cóccix (leia-se cóx) e foi aí que iniciou alguns dias infernais.

Eu morava exatamente em frente ao meu local de trabalho (era a RedeTV, na época, e também um jornal impresso e uma agência de publicidade. Trabalhava como repórter da TV e do jornal). Então, com muito, mas muito esforço (quem já machucou o coccix sabe muito bem como é) atravessei a rua para avisá-los do a(in)cidente. Naquele dia, íamos para uma outra cidade, fazer a cobertura de não sei o quê. Outro repórter foi no meu lugar.

A primeira coisa que fiz após avisar a empresa, foi ligar para a mãe. Caramba, mal conseguia me mexer! Tudo seria infinitamente mais fácil com ela por perto! E é claro que ela, minha amada mãe, ficou muito preocupada (não vou escrever desesperada, porque ainda não é o momento). Então, liguei, chorei e ela poderia fazer o que? Nada! Só a deixei mal. Minha família em geral, mas vou focar na figura da mãe, porque sim.

Bom, acontece que em um outro momento, também no Mato Grosso, após um longo dia de trabalho, cheguei em casa com uma dor horrível na área da barriga. Não sabia ao certo o que era. Essa dor foi piorando conforme o tempo passava e eu comecei a suspeitar de apendicite, porque era bem naquele local. Fiquei um tempo com as pernas para cima (uma maneira incrível de melhorar uma dor aguda na área do apêndice! Só que não), fiz massagens com os dedos na barriga até que comecei a vomitar. Quando vomitei o que fiz? Liguei para minha mãe, claro! Por que iria procurar um médico se tenho uma mãe há zilhões de quilômetros de distância??

Por que fiz isso? Eu me pergunto hoje. Deixei-a (agora sim) desesperada! Ela pesquisou na internet meus sintomas e constatou que poderia ser apendicite. Ligou dizendo que eu precisava ir urgentemente ao médico. Bom, fui ao posto de saúde ali perto, o médico confirmou a suspeita e pediu que me dirigisse ao hospital.

Embarquei na carona da moto da minha amiga rumo ao hospital. A biz foi pesada para lá: minha amiga, eu, uma requisição de cirurgia e a preocupação de minha mãe. Avisei-a que em breve faria uma cirurgia para retirar o apêndice. Ela me informou, com a voz embargada, que estava vendo as passagens e, no dia seguinte, embarcaria rumo ao Mato Grosso. A viagem seria mais ou menos a seguinte: Santa Rosa – Porto Alegre (ônibus)/ Porto Alegre – Cuiabá(avião)/Cuiabá – Lucas do Rio Verde (ônibus novamente). Sei lá quantas horas!

Cheguei no hospital e fui prontamente atendida. O médico me levou direto a uma sala para fazer um ultrassom. Eu estava tensa, com medo e saudosa da minha família. De repente, o médico solta uma ligeira e discreta risada, volta-se para mim e diz, apontando para a tevezinha que mostrava a imagem da destruição dentro do meu corpo:
- Está vendo essas bolotas aqui? Sim, ele usou essa palavra engraçadinha!
- S-sim. Disse, nervosa.
- São gases!
- Gases…
- Sim, você está com gases.
- Isso quer dizer que não estou com apendicite? Eu não vou precisar fazer uma cirurgia? É isso?

Ele riu, confirmando minha constatação. Eu ri, aliviada, agradecida, renascida, sei lá.
- Acho que um remédio já basta para resolver seu problema. Ele acrescentou.
E aí outra surpresa do dia…
- Pegue um carvão, deixe de molho na água e depois tome. É tiro e queda!

Um médico me receitou água com carvão! O Mato Grosso é realmente incrível!
Eu voltei para casa feliz, fiz a receita que ele indicou e me curei daquele terrível mal. Claro, avisei primeiramente a minha mãe, que estava lá, como um leão dentro de uma jaula, sem poder e sem saber o que fazer, andando de um lado pro outro (assim que eu imagino a cena daqueles momentos sem notícias minhas). Depois disso tudo, soube que ela havia lido na internet que é possível uma pessoa com apendicite morrer, após os sintomas de vômito! Agora imaginem em que estado de desespero meus pais estavam!

Bom, quando morei no Rio de Janeiro, e após ter refletido sobre os acontecimentos anteriores, quando tinha algum problema, deixava as coisas passarem, resolverem-se e depois falava para a minha família. E muitas vezes, nem falava: eu já havia resolvido. Eu estava bem. Sobrevivi a todos.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

O repeteco dos imbecis





Morin estava certo: repetimos muitas coisas que nunca ou poucas vezes paramos para pensar e refletir, mas que algum dia, alguém disse e nos pareceu interessante e então saímos por aí, espalhando aos quatro cantos. Quero citar uma expressão/ideia que muitos dizem, porém, está muito claro que não passa de um repeteco dos mais chulos: “com tanta criança passando fome, vocês ainda querem defender os animais”. É algo assim, com uma ou outra variação e que - pode apostar – aquele que não simpatiza muito com a causa, que acha frívola, trivial, imbecil, falta do que fazer ou irrelevante, acaba dizendo (fico até emocionada em saber o quanto tem gente preocupada com a causa infantil).
Então, vamos analisar a questão:
1 - Essa pessoa - que repete isso com todas as suas víceras e convicções - chega em casa, cansada de um dia de trabalho e de repente ouve gritos de sua vizinha. Ouve também alguns barulhos de pancadas e, logo na sequência, grito de algum cão. Mais gritos, mais gemidos, mais pancadas. Aproxima-se do muro que divide as residências e se depara com uma cena brutal. Logo percebe que se trata daquele cão nojento, fedido e barulhento da vizinha. Bom, qual será a reação desse indivíduo?
      
A) Fica aterrorizado com aquilo e tenta intervir ligando para a polícia, afinal de contas é um animal indefeso;

B) Lembra-se que tem muita criança passando fome naquele mesmo momento e seria uma grande ofensa a elas fazer qualquer coisa a respeito. Então, decide colocar um fone de ouvido ou ligar a televisão no volume mais alto e, de preferência, num programa bem animado para distrair a atenção;

C) Aproxima-se do muro da casa e fica observando a cena, pois acha muito divertido.

2 - Esse mesmo indivíduo, em outro dia qualquer, está na rua indo para seu trabalho e de repente é parado por um jovem distribuindo alguns folhetos. Ele veste uma camiseta escrita: “Preserve o verde”. O jovem pede para conversar com esse cidadão e explica que está fazendo um trabalho de conscientização para a preservação da natureza e meio-ambiente. No folheto, há várias dicas sobre como separar o lixo, como economizar água, etc. Como o indivíduo reage?

A) Decide parar, escutar e aceitar o folheto, afinal acha a causa muito nobre e acredita que devem existir pessoas que façam esse tipo de trabalho;

B) Lembra-se que tem muita criança passando fome naquele mesmo momento e acha um absurdo ter gente se preocupando com o meio-ambiente;

C) Pega o folheto, continua seu trajeto e, após virar a esquina, amassa e joga-o no chão.

Consegue perceber que esse argumento é absurdo, vazio, sem sentido e não passa de um repeteco leviano? Primeiro porque, como exposto na situação 1, é natural que haja reação/intervenção/sensibilização a cenários de maus-tratos aos animais, assim como há reação quando se vê uma criança indigente. Quem, porventura decide atuar em favor da causa, está apenas reagindo a fatos concretos, reais.

E qualquer pessoa que resolva fazer alguma coisa, mínima que seja, em relação aos animais não está excluindo de suas preocupações a causa do sofrimento de crianças. Não, gente, que conversinha!! Além disso, crianças não estão morrendo de fome porque tem gente preocupada em cuidar de animais. Sinto informar, mas os fatores são outros.

E depois, como exposto na situação 2, por que nunca ouvi ninguém falar a tal frase quando o assunto é natureza/meio ambiente? Não seria a mesma lógica de pensamento: “crianças morrendo enquanto tem gente cuidando de uma árvore”? Existe então uma hierarquia de militâncias? Devo eleger as mais importantes e ignorar aquelas em que não me afetam diretamente e materialmente? Em que não afetam meu bolso, minha família, meus filhos, minha saúde, etc?

E qual seria, portanto, aquela causa totalmente dispensável em que não afeta nem meu bolso, nem minha saúde, nem meu bem-estar aparente? Opa! Parece-me justamente a dos animais, já que qualquer sofrimento que os acometa será exclusivamente problema deles e não um problema social, consequência da falha no sistema de organização do ser HUMANO, algo em que cientistas sociais, por exemplo, devam preocupar-se em estudos e teses. Dá para entender agora porque é tão “indigno” e “banal” ser ativista dessa causa?

E outra, essas pessoas que vivem papagaiando por aí será que fazem alguma coisa? Crianças, animais, idosos, meio ambiente, mulheres?? Nada? Pelo menos se informam?


OBSERVAÇÃO: Eu sou a favor de todas as causas que tenham a intenção sincera de melhorar qualquer aspecto desse globo terrestre. E NÃO ACHO QUE ELAS SEJAM EXCLUDENTES.